http://discovirtual.uol.com.br/disco_virtual/lucelmo/Acerca_da_terminologia.doc

http://discovirtual.uol.com.br/disco_virtual/lucelmo/Curriculo_Lucelmo.doc

http://discovirtual.uol.com.br/disco_virtual/lucelmo/Projeto_Mestrado_Lucelmo.doc

http://discovirtual.uol.com.br/disco_virtual/lucelmo/Ratzianger_vs_boff_revisao.doc

Autores

Aqui publicamos diversos artigos de autores diversos

Desculpas

Desculpem a não atualização, pretendo melhorar.

 

Chávez Critica a Globo

 

O “caso RCTV” no processo Bolivariano

                           (PARTE 1)

 

 

A não renovação de um tv de canal privado, na Venezuaela, a RCTV está sendo largamente debatida em várias instâncias de todo o mundo. No Brasil, a maioria das leituras que os cidadãos acessam é, infelizmente, da mídia gorda, que tem interesses muito particulares na questão, a quem interessar informação com credibilidade e debate qualificado dobre o assunto, recomendo entrar no sítio www.cartamaior.com.br, da Agência de Notícias Carta Maior, é só pesquisar por RCTV que aparecerão vários artigos sobre o tema, também é de muita qualidade a última edição da Revista Carta Capital que trata do poder da mídia.

Isto posto, colocamos que o intuito do presente artigo não é reiterar essa discussão, somente em passant, nosso desejo é colocar o “caso” no contexto do processo Bolivariano, liderado pela Venezuela.

A mídia gorda e os EUA vociferam contra Chávez e arrastam consigo os que estão em seu arco de influência, a opinião pública, incluindo de grande parte dos políticos de todo o mundo, e os organismos internacionais, tradicionalmente fiéis aos EUA. A alegação dessas forças em favor da renovação da licença da RCTV é a “liberdade de expressão”, assim pensamos “ora, o dono da RCTV pode continuar falando, gritando suas opiniões” , eles bradarão “mas como? Sem a tv, quase ninguém o ouvirá!” eu retrucaria “muitos milhões de venezuelanos não possuem canais de tv, por que vocês nunca bradaram pelo cerceamento da liberdade de expressão deles?”. É indefensável, se trata de manter a opinião na mão de uma classe social, a burguesia, dona de 81 canais privados, contra 4 públicos.

Mas para não entrar na questão de classe social, muitos leitores podem ser burgueses (ou pensarem como burgueses), vamos para uma questão mais concreta: a lei. A liberdade de expressão exige responsabilidade, ninguém tem liberdade para caluniar, é crime, para difamar, é crime, para incitar assassinatos, é crime, outrossim, um canal de TV funciona com uma faixa radioelétrica que é propriedade do povo, por isso, co pode funcionar com concessão pública. É o que a TV deve dar ao público para “pagá-la” por estar lucrando com um sinal que não é dela e que não é alugado, é concedido? Isso é determinado pela constituição, a pergunta é: a RCTV cumpria esses requisitos?

As transmissões do canal RCTV foram suspensas em 1976, por “notícias falsas e tendenciosas”;  em 1980, por  “relatos de fatos pouco edificantes”; em 1981, por “um filme de corte pornográfico” e punida em 1984 por ridicularizar “de forma humilhante” ao então presidente Luis Herrera Campins e sua esposa. Hoje existem 600 acusações por vários crimes, contra a RCTV na CONATEL, Comissão Nacional de Telecomunicações, entre eles racismo, a prostituição, o machismo, o uso de drogas, a violência, a destruição familiar, o desrespeito às instituições do Estado. Basta entrar no you tube e ver-se-á vários vídeos da RCTV que retratam essas acusações e mesmo de pedofilia.

Pensemos no Brasil, um deputado que brade para que os negros voltem a ser escravos e chicoteados, o que deve acontecer com ele, a liberdade de expressão está acima da lei. Um jornalista da RCTV recebeu a reunião que organizou a conspiração do golpe de 2002, um de seus diretores foi um dos primeiros a serem recebidos pelo mais efêmero ditador Pedro Carmona. Quando o povo foi às ruas e exigiu a volta de Chávez ao poder, a RCTV, acuada, passou a exibir o filme “Uma Linda Mulher” e “Tom e Jerry” no horário nobre.

O “caso RCTV” no processo Bolivariano

                           (PARTE 2)

 

Quem quiser saber um pouco mais sobre o assunto pode acessar http://www.bibliotecayacucho.gob.ve/fba/index.php?id=55&no_cache=1&file=16&uid=163  e baixar o “Livro Branco da RCTV” ou consultar o Blog do Azenha, ex-jornalista da Globo http://viomundo.globo.com/.

Vamos ao processo Bolivariano. Chávez é, na verdade, uma personalidade que soube capitalizar as forças populares emergentes na América-Latina e dar a elas um impulso, ao conjunto chamo de “processo Bolivariano”. Isto porque se funda, como mito fundador, na figura libertadora de Simon Bolívar, assim como a Revolução Cubana se fundou em José Martí. Há dois vetores de ação nesse processo, que são dialéticos e simultâneos: o impulso pela independência da América-Latina, e o impulso contra a burguesia latino-americana. Afinal, não teria graça só trocar de dominador.

Esse processo nem poderia ser diferente, uma vez que nossa burguesia comprou a ideologia do centro do capitalismo, não consegue se ver como protagonista, mas somente como suporte no sistema global. Chávez então lidera um processo de profundas mudanças na Venezuela, em que tira das mãos da burguesia e entrega ao povo, os Conselhos Comunitários nesse país tem um poder inimaginável e agora passarão a comandar também as forças policiais, isto é, há uma subversão da funcionalidade real da polícia, de garantir a propriedade contra os que a produzem para entregar aos pobres, os que a produzem o comando da polícia, é nesse sentido que se insere a não renovação da transmissão da RCTV, como elemento na retirada de poder das mãos de uma pequena burguesia e transferência desse poder ao povo. O Socialismo do Século XXI nasce sob o signo da democracia profunda.

Depois do golpe de estado financiado pelos EUA, em 2002, Chávez fortaleceu-se, pois demonstrou a fragilidade do projeto neoliberal e investiu na ampliação da influência do “processo” na região, ganhou a Bolívia, Nicarágua, Chile, Uruguai, Brasil, Argentina, agora aproximou-se do Peru, no México perdeu devido a uma fraude e ainda este ano deve ganhar no Paraguai e Guatemala. Todos esses são importantes, mas principalmente o Equador, pois lá está a base avançada dos EUA sobre a América do Sul, que Rafael Corrêa não renovou e deve sair até 2009 do país.

Os EUA costumam atacar militarmente os países dissidentes, tem um poderio militar inimaginável, mas não pode travar uma guerra não ser com uma base próxima, como o Paquistão no Afeganistão. Sem o Equador resta a Colômbia (metade, pois a outra metade é das FARC), com o risco da população insatisfeita unir-se às FARC. Talvez o Panamá, mas que é muito longe, ou seja, torna inviável a alternativa hoje seriamente considerada em Washington, matar os Venezuelanos.

É verdade que o “processo Bolivariano” é ainda muito dependente da personalidade de Chávez, no entanto, no interior da Venezuela há um grande esforço no sentido de construir um movimento popular poderoso, participam desse esforço os mais de mil médicos cubanos que para lá foram atender não favelas e comunidades rurais e também a transferência de poder do estado para o povo, haja vista a nova TV que entra no lugar da RCTV, a Tevês, que é comandada por um conjunto de movimentos populares, jornalistas e docentes.

Ademais, novos elementos aparecem nesse processo, o elemento étnico, já anunciado pela constituição física de Chávez (diversas vezes achincalhada pela RCTV, “negro”, “índio” de forma pejorativa”, mas trazida à tona por Evo Morales. Também a associação com uma retomada de forças da Teologia da Libertação, que outrora a CIA classificou como “mais perigosa que o comunismo”, basta ver Rafael Corrêa, do Equador, formado nas Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, Fernando Lugo, do Paraguai, ex-bispo e Rigoberta Menchú, Nobel da Paz, da Guatemala, militante histórica da Teologia da Libertação.

 

No mais, estou fazendo meu papel no processo Bolivariano!

 

LUCELMO LACERDA é Historiador e Mestrando em História Social pela PUC-SP

25/03/2007

Caminho a La Paz

Este é o texto de número 100 do blog. Foram, até aqui, mais de 7 mil comentários ao longo de pouco mais de 8 meses, importantes não apenas pela quantidade, mas pela qualidade dos seus conteúdos e também por vir, em grande parte, de militantes, com capacidade de intervenção e multiplicação das idéias construídas coletivamente. (Sem contar as mais de 20 mil mensagens de solidariedade no processo a que ainda estou condenado por suposta “injúria”. Sem contar também as várias centenas de mensagens que tentam entorpecer o blog, mandadas desde algum robô.)

Escrevo este texto 100 no caminho a La Paz, de novo. Um caminho que, percorrido algumas vezes desde dezembro de 2005, me fez mudar minha visão da Bolívia e da América Latina. Eu havia passado rápida e furtivamente uma vez por esse país a que tão pouco conhecemos e menos ainda visitamos, há muitos anos, sem poder captar – salvo a sensação de precipício que nos dá a baixada do aeroporto de El Alto até a capital – a identidade desse país fundacional no continente.

Sabia da revolução nacionalista de 1952, das milícias operário-camponesas, da nacionalização das minas de estanho, da ditadura de Hugo Banzer, da Assembléia operário-camponesa do governo de Juan José Torres (assassinado em Buenos Aires, quando eu vivia ali), como tinha ficado sabendo, através do cinema, dos massacres das minas de Huanuni e Siglo XX.

Mas, sobretudo, a Bolívia passou a ser, para tantos de nós, a terra do projeto estratégico derrotado do Che. Daquelas cenas que nos doíam e seguem doendo tanto, do Che morto - rodeado pelos “soldaditos de Bolivia, soldaditos bolivianos” cantados dolorosamente por Nicolás Guillén.

Foi através de Alvaro Garcia Linera – o mais importante intelectual latino-americano da atualidade – que pude compreender a extraordinária dinâmica contemporânea do movimento popular boliviano. Depois das derrotas impostas pelo neoliberalismo – inaugurado em escala mundial na Bolívia, junto ao Chile de Pinochet -, com praticamente a desaparição do movimento sindical mineiro, o movimento social na Bolívia se recostruiu, liderado pelos movimentos indígenas.

Foi a partir dali – como se pode ver na brilhante análise que faz Alvaro sobre a Bolívia, no verbete sobre esse país na Latinoamericana, Enciclopédia Contemporänea da América Latina e do Caribe, publicada pela Boitempo – que se construiu a fisionomia atual da esquerda boliviana. Da resistência dos movimentos indígenas à privatização da água por uma empresa francesa, passando pela luta contra a exportação do gás ao Chile, até chegar, mediante movimentos de sublevação popular, a eleger, pela primeira vez, a um lider indígena, presidente do país.

Apenas no primeiro ano do governo Evo Morales, foram nacionalizados os recursos naturais, foi convocada a Assembléia Nacional Constiuinte - para refundar o Estado boliviano em bases multiculturais e multiétnicas – e iniciado o processo de reforma agrária, entre tantas outras iniciativas, fazendo dele o ano mais importante da história do país.

O tamanho da resistência das elites brancas – minoritárias, já que 63% dos bolivianos reivindicam sua identidade indígena – é do tamanho das transformações que estão sendo postas em prática, no principal processo revolucionário atual na América Latina. Alvaro Garcia contribuiu decisivamente para isso não apenas na construção do MAS, como expressão direta e orgânica dos movimentos sociais, e como dirigente político e vice-presidente de Evo Morales, mas antes de tudo pela sua contrbuição teórica. Apoiado em Gramsci e em Mariategui, Alvaro fez a crítica do economicimo da esquerda tradicional, que despojava os indígenas de sua identidade profunda, catalogando-os simplesmente como camponeses, por viverem da pequena produção rural. Os indígenas – aymaras, quechuas, guaranis – foram resgatados nas suas múltiplas identidades, com seus modos de vida, hábitos, formas de organização comunitária, ética, educação, idioma.

Foram os povos indígenas os setores hegemônicos nas mobilizações populares dos cinco anos decorridos desde 2000 até a vitória eleitoral de dezembro de 2005, abrindo um capítulo extraordinário da história boliviana. Foi essa redefinição teórica que abriu caminho para a elaboração atual da primeira constituição que reconheça os direitos, os usos e costumes dos povos indígenas e instaure um Estado que reflita a hegemonia desses povos na sociedade boliviana.

Como se não bastasse, a Bolívia nos apresenta, da melhor maneira, a nova estratégia de poder da esquerda latino-americana. Depois da estratégia tradicional, de reformas, protagonizada pelos partidos socialista e comunista, assim como pelos movimentos nacionalistas, que tiveram no governo de Salvador Allende sua expressão mais profunda, e da estratégia da guerra de guerrilhas, que teve em Cuba e na Nicarágua, sua expressão mais avançada, surge uma terceira estratégia.

Esta combina distintas formas de luta – da sublevação às eleições, passando pela ocupação de estradas, pela greve de fome -, desembocando em uma alternativa institucional mas que, vitoriosa, não se restringe a ocupar o Estado tradicional, mas busca refundá-lo para construir um novo tipo de sociedade, uma nova Bolívia. De formas um pouco diferenciadas, a Venezuela e o Equador são outros exemplos desta nova estratégia.

Estarei relatando o que possa captar dessa nova Bolívia ao longo desta semana. Ao mesmo tempo entregarei para Evo Morales as quase 700 adesões feitas através do blog, pela sua indicação para o Prêmio Nobel da Paz.

Postado por Emir Sader às 09:50

                                                     DEBATE ABERTO

De volta para o futuro

Com Evo, Chávez, Bachelet, Lula e Kirchner, o cenário ideológico latino-americano ficou repleto de idéias. Podem dar certo ou errado, mas não há como impugná-las por serem antigas. Elas tem raízes na história da região, e não se pode dizer que fracassaram, já que sempre foram interrompidas pelos golpes da direita liberal.

Chama a atenção a ira dos conservadores. Mas também chama a atenção o desconcerto e a crítica da esquerda ao comportamento e às posições dos novos presidentes sul-americanos, em particular, da Venezuela, Bolívia e do Equador. No caso dos conservadores, por razões óbvias, de interesse imediato, mas no caso da esquerda, por motivos menos explícitos, e com argumentos mais sinuosos, que em geral escondem um preconceito profundo contra estes novos líderes indígenas, sindicalistas ou soldados que não conhecem o manual das boas maneiras, do “esquerdista perfeito”. Quase todos estes intelectuais já gostaram dos personagens e enredos fantásticos de Alejo Carpentier, Garcia Marques, Vargas Llosa, mas muito poucos conseguem entender e se relacionar com o mundo real das sociedades hispano-indígenas, e com seus líderes que não são iluministas, nem intelectuais de salão. De qualquer maneira, durante os primeiros anos, todas as divergências e críticas pareciam reduzir-se a um problema de excentricidades pessoais. Até ali, os novos governos de esquerda da América do Sul pareciam condenados à mesmice, como se todos fossem prisioneiros perpétuos da “verdade científica” da economia neoclássica, e da “modernidade inevitável” das reformas neoliberais.

A origem deste pesadelo é bem conhecida: na década de 90, as teses neoclássicas e as propostas neoliberais se transformaram no senso comum dos governos, e de uma boa parte da intelectualidade sul-americana. Foram os “anos dourados” das privatizações, da desregulação dos mercados, e da crença no fim das fronteiras e na utopia da globalização. Mas mesmo depois das derrotas dos neoliberais, os novos governos de esquerda, recém eleitos, mantiveram o mesmo “modelo econômico”. Eles não tinham objetivos estratégicos próprios e sua política econômica seguia sendo a mesma dos governos anteriores. Mas este quadro começou a mudar depois das nacionalizações do governo de Evo Morales. Num primeiro momento, pareciam medidas pontuais e indispensáveis à fragilidade fiscal do governo boliviano. Mas, depois, foi ficando claro que se tratava de uma ruptura mais profunda e estratégica com o passado neoliberal da Bolívia, e um anúncio do novo projeto de “socialismo do século XXI”, que seria proposto, uns meses depois, pelo presidente Hugo Chávez, da Venezuela. E eis que, de repente, não mais que de repente, acabou a mesmice, e rompeu-se a “concertação por antagonismo” entre a “mão invisível” neoliberal e a “esquerda pasmada”. Goste-se ou não, foi assim que ressurgiu, na América do Sul, a palavra e o projeto socialista, e depois disto, ao contrário do que muitos previam, a esquerda não se dividiu. Pelo contrário, clarificou a sua diversidade interna, e explicitou a multiplicidade dos seus caminhos sul-americanos. Como se pode ver, por exemplo:

i) no caso do projeto “socioliberal”, do governo chileno de Michelle Bachelet, que vem modificando gradualmente o modelo econômico ortodoxo das últimas décadas, mas ainda se mantém muito distante do projeto socialista do governo de Salvador Allende. Assim mesmo, é cada vez maior o seu parentesco com as políticas da Frente Popular, que governou o Chile, entre 1936 e 1948, com o apoio dos socialistas, radicais e comunistas, privilegiando as políticas de universalização “com qualidade” dos serviços públicos universais de saúde e educação.

ii) no caso do projeto de “new deal keynesiano”, do governo argentino de Nestor Kirchner, cada vez mais distante do “modelo econômico” do governo Menem. Depois da moratória argentina, o presidente Kirchner redefiniu suas relações com a “comunidade financeira internacional”, e transformou em prioridade absoluta do seu governo a criação de empregos e a recuperação da massa salarial da população argentina, utilizando-se da formula clássica da social-democracia européia da “concertação social” para conter a inflação. Além disto, voltou a proteger a indústria, estatizou vários serviços públicos e lançou, recentemente, um programa de reestatização opcional da própria Previdência Social.

iii) no caso do projeto de “socialismo do século XXI”, anunciado pelo presidente Hugo Chávez, e apoiado pelos governos da Bolívia e Equador, retomam-se idéias e políticas que vêm da Revolução Mexicana e que fizeram parte dos programas de vários governos revolucionários ou nacionalistas do continente, culminando com a experiência de “transição democrática ao socialismo” do governo de Salvador Allende, no início da década de 70. Em todos os casos, o ponto central foi o mesmo: a criação de um núcleo produtivo estatal com capacidade estratégica de liderar o desenvolvimento do país, na perspectiva da construção de uma sociedade mais igualitária. Uma espécie de “capitalismo organizado de Estado”, onde convivam o grande capital estatal e o privado, com as pequenas cooperativas da economia indígena, dentro de um sistema comunal de participação democrática.

iv) por fim, no caso do “desenvolvimentismo com inclusão social”, do segundo governo Lula, suas primeiras medidas e propostas são muito claras: seu objetivo estratégico não é construir o socialismo, é “destravar o capitalismo” brasileiro, para que ele alcance altas taxas de crescimento capazes de criar empregos e aumentar os salários de forma sustentada, fortalecendo a capacidade fiscal de investimento e proteção social do Estado brasileiro. Com este objetivo, o governo Lula está retomando o velho projeto desenvolvimentista que remonta à década de 30, e que só foi interrompido nos anos 90. Mas, ao mesmo tempo, está querendo criar uma vontade política através de uma grande coalizão social e econômica que reúna as várias vertentes do desenvolvimentismo brasileiro, conservadoras e progressistas, que estiveram separadas durante a ditadura militar.

Resumindo: a ira e o desencanto dos liberais de direita e de esquerda tem sua razão de ser. De repente tudo mudou, e o cenário ideológico latino-americano ficou diversificado e repleto de idéias e propostas. Podem dar certo ou errado, mas não há como impugná-las, como vem acontecendo, pelo simples fato de serem projetos antigos. Todas tem raízes profundas na história latino-americana , e não se pode dizer que fracassaram, porque sempre foram interrompidas pelos golpes da direita liberal.


José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

My name is Panamá  parte 1

Um país sob o jugo da dominante cultura americana, o Panamá vive intensa crise de identidade e assiste à economia ficar cada vez mais atrelada aos EUA com a assinatura do TLC.

Sétimo país do qual os Latinautas mandam relatos, o Panamá vive uma profunda crise de identidade após um século de domínio dos EUA. Mesmo com o canal, principal fonte de divisas do país, tendo já passado ao controle panamenho desde 1999, a cultura e a economia do país continuam sob forte jugo americano.

O relato que segue apresenta um pouco daquilo que, na História do Panamá, serve de indícios para a descaracterização da cultura local, além de apresentar o papel da Teologia da Libertação que, a exemplo de outros países da América Central, mostra-se como uma das principais referências de lutas sociais. O controverso tema da assinatura do Tratado de Livre Comércio com os EUA é avaliado sob a ótica de economistas locais. Há ainda, o registro do lançamento do Partido dos Trabalhadores Panamenhos, que aconteceu durante a estada dos Latinautas no país.

Canal do Panamá; invasão dos Estados Unidos
O desejo de construir um canal na região da América Central, que ligasse os Oceanos Pacífico e Atlântico, sempre esteve presente nas mentes dos comerciantes europeus e norte-americanos. Diversos projetos surgiram ao final do século XIX. O que obteve maior destaque foi o dos Franceses, os quais, por já possuírem a experiência de terem construído o canal de Suez, ganharam a concessão e escolheram o Panamá como local ideal para sua construção.

Entretanto, a construção do canal começou a apresentar diversos problemas, os gastos eram muito maiores do que o orçamento inicial e milhares de homens perderam suas vidas por causa de doenças tropicais. A idéia inicial era a de construir um canal em linha reta, ao nível do mar. Aos poucos, os franceses demonstraram-se inaptos para dar seqüência à construção do canal do Panamá e, então, passaram seus direitos sobre a área para os Estados Unidos.

O Canal foi administrado pelos Estados Unidos durante o século XX. Toda a área que a eles “pertencia” funcionava como um país diferente do Panamá. Os panamenhos não podiam freqüentar os espaços norte-americanos, sendo privados do direito de circular dentro de sua própria nação.

Em 1989, os Estados Unidos invadiram oficialmente o Panamá com a justificativa de retirar o ditador Noriega do poder. Entretanto, a luta contra a ditadura deveria ser do povo panamenho e a invasão foi vista com bons olhos apenas pelos setores de elite da população, os quais teriam seus ganhos econômicos garantidos. Vale lembrar que o ditador Noriega sempre foi um fiel amigo estadunidense e trabalhou durante anos para a CIA. Quando seus serviços não mais contavam, os EUA decidiram então “proteger seus interesses”.

Em 1999, o Canal do Panamá passou, finalemnte, para as mãos panamenhas. Entretanto, muita pouca coisa mudou, pois o Canal segue operando voltado para os interesses de uma pequena elite local.

Identidade Panamenha
A moeda corrente panamenha é o Balboa. O Balboa é uma moeda fictícia. Existe somente como um nome, pois, na realidade, é sinônimo de dólar. Sim, o dinheiro que circula no país não se chama dólar, mas é o dólar. “Estranho” pensamos. Descobrindo isso, estávamos prontos para presenciar outros indícios de colonização norte-americana na região.

Os outdoors nas avenidas mais importantes da capital, Cidade do Panamá, são todos escritos em inglês. A grande maioria dos anúncios imobiliários também. Até mesmo a seção de oferta de emprego no jornal é em inglês, ou quem sabe, bilíngüe. Mas qual seria a língua oficial do país?

Demoramos um pouco para entender o que acontecia naquela nação. Durante os primeiros dias não sabíamos exatamente o que ocorria. Procurávamos manifestações da identidade local, mas era difícil encontrar algo autêntico. A população justificava-se dizendo que a Cidade do Panamá é uma capital moderna, onde vivem pessoas de diversas nacionalidades. Mas e o povo panamenho, onde se encontrava?

My name is Panamá  parte 2

Tratado de Livre Comércio sob a ótica de um economista
Nossa primeira entrevista em solo panamenho foi com o economista Aléxis Sotto, representante da organização nacional de agricultores e produtores (ONAGRO). Sotto é também analista econômico de diversos setores do governo e de empresas privadas. Aléxis Sotto foi muito atencioso, dirimiu nossas duvidas e interou-nos da situação econômica do país, mais precisamente sobre a assinatura do Tratado de Livre Comercio (TLC) com os Estados Unidos.

Para Sotto, o TLC pode representar vantagens e desvantagens. Entretanto, o que mais preocupa o economista é que o Panamá possa, em algum ponto, perder sua soberania. “O país deve produzir seus produtos básicos, ou, ao final, ficaremos nas mãos dos Estados Unidos e teremos que comprar todos os produtos deles, com o preço que eles desejarem”.

Aléxis Sotto repetiu-se diversas vezes sobre a questão da soberania econômica. Disse também que um país deve sim participar de acordos econômicos desde que os mesmos beneficiem sua própria economia. Ao perguntarmos sobre a questão da moeda nacional, o economista respondeu que foi algo “natural” uma vez que, pelo país, passe carga de diversas procedências e a moeda corrente entre os negociantes sempre foi o dólar.

Saímos da entrevista com algumas dúvidas respondidas, mas a questão da identidade nacional ainda estava longe de ser resolvida e, para nós, era difícil aceitar que as coisas naquele nação acontecessem assim, tão “naturalmente”.

Igreja Católica
Assim como nos demais países da América Central, a Teologia da Libertação foi bastante difundida no Panamá. Atualmente, um dos principais representantes da mesma é a Fundação Pastoral Cáritas. Ainda que menos “radical” do que nos anos anteriores, a Pastoral segue com a filosofia de que a Igreja é para todos, as pessoas possuem os mesmos direitos independente de cor, gênero e/ou situação econômica.

O Panamá é o segundo país da América Latina com a pior distribuição de renda, perdendo apenas para o Brasil. A linha divisória entre ricos e pobres vem aumentando ao longo dos anos, fator que assusta muitos e é uma das principais preocupações do grupo Cáritas.

Conversamos com o Diácono César Carraquilla Vasquez, coordenador da Fundação. Segundo ele, diversos projetos de “desenvolvimento” presentes atualmente no Panamá possuem características neoliberais.

“Qualquer projeto que não leve em conta as pessoas que estão ao redor possuem uma característica neoliberal (...) as pessoas devem tomar consciência de que devem lutar por uma melhor qualidade de vida. Isso não surgirá de maneira espontânea. Nós temos que lutar pela vida, a vida que nos deu Deus. Uma vida em que todas as pessoas tenham direito a um pão, à assistência medica, à educação e à recreação. Se tivermos isso claro, concluímos que qualquer projeto deve promover o desenvolvimento integral do ser humano”, concluiu o diácono.

Um Canal ao serviço de um país ou um país ao serviço de um canal?
O encontro com o professor universitário e radialista Miguel Antonio Bernal foi, sem dúvida alguma, o mais esclarecedor de todos. Bernal demonstrou-se muito direto e claro em suas palavras, trazendo-nos a compreensão da atual situação do país num contexto amplo.

Para ele, a crise de identidade que o país enfrenta é tão séria que o Panamá encontra-se em um momento decisivo dentro do qual terá que decidir se será um país ou apenas um Canal. Leia a entrevista na íntegra com Miguel Antonio Bernal (leia aqui).

(*) Latinautas é o apelido dado pela Carta Maior à equipe da expedição "Da América para as Américas", formada por Milena Costa de Souza, Pedro José Sorroche Vieira, Thiago Costa de Souza e Ligia Cavagnari. Eles atravessam as Américas, passando por 17 países, percorrendo mais de 25 mil km em busca de uma identidade de resistência à hegemonia política, econômica e cultural exercida pelos EUA.

As imagens do socialismo
por jpereira — Última modificação 22/01/2007 16:55
Contribuidores: Raúl Zibechi

Na Venezuela, o socialismo tem dois caminhos: ou se assenta nas milhares de iniciativas dos de baixo ou se assenta no aparato estatal, um rumo já conhecido

Raúl Zibechi *

A polêmica nascida no calor da recente proposta do presidente Hugo Chávez de criar um partido único de seus partidários na Venezuela, que vai no sentido da sua iniciativa de construir o socialismo do século XXI, parece uma boa oportunidade para animar um debate sempre vigente e necessariamente não concluído sobre o outro mundo, o qual tanto aspiramos. Como disse o sociólogo venezuelano Edgardo Lander, é impossível avançar no debate sem fazer um balanço do socialismo real. Para nós formados no pensamento de Marx, a experiência passada e presente do "movimento histórico que se está desenvolvendo diante de nossos olhos" (Manifesto Comunista) é a referência inevitável neste debate.

As trajetórias de muitos movimentos sociais latino-americanos têm estreita relação com as metáforas, nas quais Marx apelou para delinear suas visões da revolução e o mundo novo. Marx não se empenhou em formular uma "teoria da revolução", ao contrário do que alguns de seus seguidores afirmavam, mas se limitou a pensar com base em imagens oriundas da experiência concreta. Suas construções teóricas pretendiam impulsionar o movimento real, não indicar um caminho único, atemporal, ahistórico, válido para todos os tempos e em todas as latitudes.

Na linha da Comuna de Paris, recordou que "os operários não têm nenhuma utopia listada para implantar pelo decreto do povo (...) não têm que realizar nenhum ideal, senão simplesmente livrar da nova sociedade os elementos que a velha sociedade burguesa agonizante leva em seu seio". Em outras ocasiões, recorreu à imagem da revolução como parteira: não é a revolução que cria o mundo novo, ela, 'simplesmente', o ajuda a nascer. Nunca considerou o Estado como a ponta de lança na construção do socialismo, instituição que sempre considerou como obstáculo ao caminho emancipatório.

Diante de nossos olhos aparecem hoje múltiplas práticas de mudança social que crescem no seio dos movimentos, da Selva Lacandona à Patagônia. São criações originais de parcelas dessas outras sociedades (de indígenas, sem-terra, desempregados, pobres das periferias urbanas) às margens do mercado e contra a acumulação de capital. No geral, não respondem a desenhos pré-fixados por tal ou qual corrente política - "não se baseam em idéias e princípios inventados por tal ou qual reformador do mundo", como disse o Manifiesto -, mas bebem nos inesgotáveis mananciais das culturas e tradições dos de baixo. Como todas elas são diferentes, suas criações são igualmente diversas e díspares.

Nos territórios dos movimentos, que são outras sociedades em movimento, surgem práticas educativas, de saúde, de produção, assentadas em relações sociais não-capitalistas. Operários de fábricas recuperadas que produzem sem capatazes e reinventan formas de divisão do trabalho que não geram hierarquias; camponeses que criam assentamentos que supõem uma verdadeira revolução cultural na vida rural; indígenas que recuperam seus saberes curandeiros ancestrais; desempregados que inventam mercadorias e as trocam com outros desempregados. Nestes espaços, a educação se converte, amiúde, em autoeducação e, portanto, adquire traços emancipatórios ao dissolver a clássica relação sujeito-objeto que reina nas aulas.

Se alguém pretende delinear o aspecto que terá o socialismo, não tem mais que observar estes outros mundos para captar traços que vão se revelando aos poucos, em multiplas práticas que são embriões do mundo novo. Mas o primordial está por vir. Ainda não sabemos como será o socialismo porque, no fundamental, vai tomando forma nas diferentes experiências dos oprimidos na medida que vão demonstrando suas potências criativas. Ao contrário dessa imagem tão apreciada por certos revolucionários, que asseguram que "o caminho está traçado" e somente falta percorrê-lo.

O entendido como propiedade estatal dos meios de produção e desenvolvimento das forças produtivas fracassou retumbantemente. O mundo novo cresce de dentro para fora e se expande horizontalmente, por fora e na contramão das instituições. Para o parto desta sociedade nova, parece necessário contar com uma ferramenta de caráter estatal - a força, a violência organizada -, esses fórceps que ajudam a 'romper a casca', para voltar às imagens de Marx. Depois, os fórceps devem ser descartados para que não se transformem em um fim em si mesmos e acabem desfigurando o mundo novo.

Na Venezuela, o socialismo tem dois caminhos. Ou se assenta nas milhares de iniciativas dos de baixo, nos mais de 6 mil comitês de terra urbana ou nas 2 mil mesas técnicas de água, para colocar apenas dois exemplos, onde milhões de pessoas estão participando; ou se assenta no aparato estatal. Neste caso, o Estado se encarrega da produção, saúde e da educação, e com o tempo de todos os aspectos da vida. Será um Estado cada vez mais fuerte, mais poderoso, mais centralizado, que formará uma sociedade a sua imagem e semelhança: homogênea, idêntica a si mesma, sem espaços para a diferença e a dissidência. É um caminho conhecido. Com toda segurança, conduz à melhora dos índices de vida da população, mas não tem nada a ver com o socialismo nem com a emancipação. A relação mando-obediência, um dos eixos do sistema capitalista e do Estado, seguirá ocupando um lugar dominante.

Este modelo tem em seu favor a previsibilidade. Sabe-se até onde conduz, quem tem o timão e quem executa as ordens. Ao contrário, os caminhos que levam a um outro mundo, ao socialismo, digamos, são incertos, imprevisíveis e devem reinventar-se sempre. Não há modelos. No meu modo de ver, a experiência de autogoverno dos de baixo mais avançada que existe hoje é Chiapas, onde todos e todas aprendem a governar-se, dissolvendo assim o Estado. Longe de ser um modelo, é apenas um ponto de referência, a prova palpável de que é possível ir mais além do que existe, além dos caminhos trilhados que a história de mais de um século tem mostrado que reproduzem formas de opressão intoleráveis.

* Raul Zibechi é jornalista uruguaio, editor do semanário Brecha.

Os 80 anos de Fidel - confidencias

Leonardo Boff

O que vou publicar aqui vai irritar ou escandalizar os que não gostam de Cuba ou de Fidel Castro. Não me importo com isso. Se não vês o brilho da estrela na noite escura, a culpa não é da estrela, mas de ti mesmo. Em 1985 o então Cardeal Joseph Ratzinger me submeteu, por causa do livro "Igreja: carisma e poder", a um "silêncio obsequioso". Acolhi a sentença, deixando de dar aulas, de escrever e de falar publicamente. Meses após fui surpreendido com um convite do Comandante Fidel Castro, pedindo-me passar 15 dias com ele na Ilha, durante o tempo de suas férias. Aceitei imediatamente, pois via a oportunidade de retomar diálogos críticos que, junto com Frei Betto, havíamos entabulado anteriormente e por várias vezes.
Demandei a Cuba. Apresentei-me ao Comandante. Ele imediatamente, à minha frente, telefonou para o Núncio Apostólico com o qual mantinha relações cordiais e disse: "Eminência, aqui está o Fray Boff; ele será meu hóspede por 15 dias; como sou disciplinado, não permitirei que fale com ninguém nem dê entrevistas, pois assim observará o que o Vaticano quer dele: o silêncio obsequioso. Eu vou zelar por essa observância". Pois assim aconteceu.
Durante 15 dias, seja de carro, seja de avião, seja de barco me mostrou toda a Ilha. Simultaneamente durante a viagem, corria a conversa, na maior liberdade, sobre mil assuntos de política, de religião, de ciência, de marxismo, de revolução e também críticas sobre o déficit de democracia.
As noites eram dedicadas a um longo jantar seguido de conversas sérias que iam pela madrugada adentro, às vezes até às 6.00 da manhã. Então se levantava, se estirava um pouco e dizia: "Agora vou nadar uns 40 minutos e depois vou trabalhar". Eu ia anotar os conteúdos e depois, sonso, dormia.
Alguns pontos daquele convívio me parecem relevantes. Primeiro, a pessoa de Fidel. Ela é maior que a Ilha. Seu marxismo é antes ético que político: como fazer justiça aos pobres? Em seguida, seu bom conhecimento da teologia da libertação. Lera uma montanha de livros, todos anotados, com listas de termos e de dúvidas que tirava a limpo comigo. Cheguei a dizer: "se o Card. Ratzinger entendesse metade do que o Sr. entende de teologia da libertação, bem diferente seria meu destino pessoal e o futuro desta teologia". Foi nesse contexto que confessou: "Mais e mais estou convencido de que nenhuma revolução latino-americana será verdadeira, popular e triunfante se não incorporar o elemento religioso". Talvez por causa desta convicção que praticamente nos obrigou a mim e ao Frei Betto a darmos sucessivos cursos de religião e de cristianismo a todo o segundo escalão do Governo e, em alguns momentos, com todos os ministros presentes. Esses verdadeiros cursos foram decisivos para o Governo chegar a um diálogo e a uma certa "reconciliação" com a Igreja Católica e demais religiões em Cuba. Por fim uma confissão sua: "Fui interno dos jesuítas por vários anos; eles me deram disciplina mas não me ensinaram a pensar. Na prisão, lendo Marx, aprendi a pensar. Por causa da pressão norte-americana tive que me aproximar da União Soviética. Mas se tivesse na época uma teologia da libertação, eu seguramente a teria abraçado e aplicado em Cuba." E arrematou: "Se um dia eu voltar à fé da infância, será pelas mãos de Fray Betto e de Fray Boff que retornarei". Chegamos a momentos de tanta sintonia que só faltava rezarmos juntos o Pai-Nosso.
Eu havia escrito 4 grossos cadernos sobre nossos diálogos. Assaltaram meu carro no Rio e levaram tudo. O livro imaginado jamais poderá ser escrito. Mas guardo a memória de uma experiência inigualável de um chefe de Estado preocupado com a dignidade e o futuro dos pobres.

América Latina em chamas

 

Em 1823 foi lançada, pelo presidente dos Estados Unidos da América, James Monroe a Doutrina que, durante muito tempo orientou o país. A Doutrina Monroe propunha “A América para os americanos”. Só para lembrar, eles se consideram “os americanos” e nós, somente “Cucarachas” do continente. A Doutrina estabelecia a não-interferência da Europa em nosso continente.

Em 1947, com o início da Guerra Fria, somou-se nova perspectiva na visão expansionista dos EUA. A Doutrina Truman do presidente Harry Truman trouxe uma novidade, “onde houver o perigo comunista, os EUA estarão lá para intervir”, o que não invalida a Doutrina anterior, mas é um prolongamento dela. Agora a América continuava como “propriedade” dos EUA, assim como este também poderia “apossar-se” dos países ameaçados pelo fantasma do comunismo.

Com o fim da Guerra Fria a retórica do comunismo perdeu atualidade e ganhou espaço as luta internacional pela gerência dos redutos energéticos, principalmente o petróleo. Isso colocou o Oriente Médio no centro das preocupações estadunidenses (digo estadunidenses por é que o que são, americanos somos todos), obrigando-os a engendrar nova retórica e nova Doutrina, cumulativa, de que os EUA deve combater o terrorismo onde quer que ele apareça. Só que Bush exagerou na dose e estabeleceu uma guerra no Iraque bastante desgastante perante seu eleitorado, seja pelos gastos em dinheiro quanto também em pessoal.

Entretido com os jogos militares que adora, Bush é do tipo que despreza a diplomacia e por isso os EUA, na América Latina vem sofrendo duras derrotas. Hugo Chávez, Presidente Venezuelano desde 1998 vem organizando um bloco anti-estadunidense na América Latina que a cada dia ganha força.

Não é verdade que os EUA não reagiu, a embaixada do país organizou um golpe de estado contra Chávez. Os golpistas anunciaram que o Presidente Venezuelano havia fugido e que havia novo governo instalado e o primeiro país a reconhecer o governo golpista foi, nada mais, nada menos que os Estados Unidos. O que os estadunidenses não esperavam é que o povôo pobre venezuelano fosse às ruas exigir a volta do poder ao governo legítimo, milhões tomaram as ruas e os golpistas tiveram que voltar atrás. Chávez não havia fugido, estava preso e voltou ao poder nos braços do povo. Depois disso houve o referendo “exigido” pela oposição, eleições parlamentares e agora nova eleição para Presidente. Hugo Chávez massacrou a oposição em todos os pleitos.

No Brasil, Lula que segue fielmente a cartilha neoliberal, na política externa ajudou a enterrar a agenda da ALCA, Área de Livre Comércio das Américas, proposta elos EUA. O brasileiro também se esforça por uma ampliação do Mercosul. No Chile, Bachellet é praticamente uma Lula de saias que, numa conjuntura nacional diferente, ainda está mais próxima dos EUA, mas cada dia mais próxima de Chávez. Na Nicarágua Ortega ganhou esse ano as eleições e promete reforçar a frente anti-EUA. A lista é grande, na Argentina, Kirchner é o anti-Ménen, e aplicou medidas contrárias à cartilha neoliberal e vê seu país crescer à toda em consonância com a integração latino-americana. Rafael Correa também ganhou no Equador e promete não renovar o contrato da base militar dos EUA e se vê muito próximo a Chávez. Por último nosso conhecido presidente da Bolívia Evo Morales está em alta no país com toda sua radicalidade na busca da Revolução Bolivariana da América. Isso além da ressurreição cubana na política externa, engendrada pelo líder venezuelano.

Esse é o cenário dos EUA na América, nos últimos anos seus aliados só ganharam no Peru e no México (neste último com fraude) e sempre por muito pouco enquanto a “Onda Vermelha” cresce e ganha força. Chávez promete aprofundar a Revolução Bolivariana e cada dia fica mais evidente o fracasso do capitalismo em corresponder às necessidades de toda a humanidade, conquanto é de seu código genético a desigualdade.

 

LUCELMO LACERDA É HISTORIADOR E MESTRANDO EM HISTÓRIA SOCIAL NA PUC-SP

Acerca de Pinochet e da América Latina

 

 

Ledo engano quem acredita que Pinochet morreu, não, ele está mais vivo que nunca, infelizmente. O ditador chileno é a configuração dos piores defeitos que por aqui brotam: o autoritarismo, a violência, e a completa submissão à burguesia e aos Estados Unidos.

Depois da Segunda Guerra Mundial, o mundo dividiu-se entre o campo de influência da União Soviética e o campo de influência dos Estados Unidos. Era a Guerra Fria, e cada tentava manter sua influência. Eis, no entanto que um povo insolente, topetudo mesmo, nas barbas dos EUA, o “Bordel Americano” como chamavam a ilha de Cuba, ousaram fazer uma revolução de caráter socialista, e mais, não sucumbiram à invasão estadunidense, resistiram e venceram.

E assim começaram a pipocar experiências mais ou menos próximas do ideal socialista, mas certamente longe da subserviência exigida pelos EUA, em todo o continente Latino-Americano, destacando-se Nicarágua, El Salvador, Guatemala (antes de Cuba), Brasil, Argentina e, é claro, Chile. Neste último se tentava uma via jamais experimentada, a construção do socialismo por uma via democrática, de certa forma parecido com o que Chávez tenta hoje.

No entanto, mesmo o Chile, com toda sua tradição institucional e solidez nas estruturas, não resistiu à pressão estadunidense. O militar Augusto Pinochet, nomeado General durante o governo de Salvador Allende, presidente socialista, e depois também nomeado Chefe das Forças Armadas, traiu seu companheiro e o assassinou, instalando um dos regimes mais violentos da história da humanidade.

No Brasil, em 1964, os EUA estavam com suas tropas no litoral, para uma eventual invasão no caso de fracasso do golpe militar. O pessoal estadunidense também foi o responsável por ministrar diversas aulas de ensino de práticas avançadas de tortura para os brasileiros. No Chile também assim foi, com a surpreendente diferença da realização da máxima de que “O discípulo supera o mestre” e os chilenos aprenderam também (treinaram muito, é verdade) que na invasão dos EUA no Iraque, eles ficaram responsáveis pelas “Oficinas de tortura”.

De toda forma há outro traço importantíssimo que Pinochet nos trouxe, o Neoliberalismo. Tatcher o trouxe à baila nos anos 80, depois do fracasso do liberalismo no começo do século XX e Pinochet logo o copiou e assim trouxe a praga à América Latina que iria devastar (ainda mais) nossa economia. O Noliberalismo, no entanto, não morreu com Pinochet, tanto o seguem os presidentes de direita no continente, quanto alguns dos pretensos presidentes de esquerda, e mesmo partidários da integração latino-americana, como Lula e Bachellet, a socialista chilena que nunca leu Marx, no máximo Delfin Netto.

De modo que se enganam os que pensam que Pinochet morreu, o Chile pais que optou pelo socialismo, viu suas lideranças de esquerda serem exterminadas e hoje esquecem seu passado, optando pelo neoliberalismo e enchendo ainda mais às burras de quem financiou o genocídio de seu povo, os EUA, com os quais travam acordos bilaterais. O ditador também deixa marcas em outros pontos do continente, no autoritarismo e violência mexicana no conflito de Oaxaca, na política econômica de Lula e, por conseguinte, na pobreza do continente.

 

 

 

 

 

LUCELMO LACERDA É HISTORIADOR E MESTRANDO EM HISTÓRIA SOCIAL PELA PUC-SP

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